Inês Viana | Anorexia | Portugal

ines1Nome : Inês Viana

Idade : 27

Altura : 1,72 cm

Peso Actual : 55 kg

Peso mínimo : 49 kg


1. Inês, antes de tudo explica-me por palavras tuas o tipo de doença que enfrentaste.

Ora bem não sei bem como “definir” o meu distúrbio mas se tivesse que o chamar de alguma coisa diria um misto de anorexia nervosa com bulimia

2. Como é que tudo começou ? 

Comecei a ficar gordinha quando entrei para o quinto ano (se bem que sempre fui grande de estrutura). Claro que nesta época a tendência para crescer (para os lados) é grande. Cheguei aos 80 kilos nestes anos e comecei a fazer as dietas malucas de não comer quase nada num dia mas no dia seguinte comia o mundo. Quando entrei para o secundário já tinha perdido um bocado de peso (estava nos 70’s). Na faculdade comecei a fazer substitutos de refeição (batidos e barrinhas) mas apenas no Verão. Depois do meu Pai morrer (2008) comecei a tornar-me verdadeiramente obsessiva. Fiz os substitutos durante 6/7 meses até que em Fevereiro de 2009 a minha mãe me obrigou a ir a uma nutricionista para ser acompanhada. ines11Se queria perder peso ia ser de um modo saudável.Quando fui à primeira vez tinha 66 kilos. A nutricionista perguntou-me até onde queria chegar e eu respondi aos 60. Ela fez contas e disse que só podia ir até aos 62. Fez-me um plano (mas não contemplava exercício físico). Comecei a perder peso mas também a fazer exercício em casa. Comprei uma elipctica e fazia 3 vezes por dia (15 minutos). Usava tanto que parti 2 vezes a máquina. A certa altura já estava nos 57 kg  e a nutricionista disse-me que não podia baixar mais. Eu pedi-lhe que não mudasse o plano e que faria uma asneira semanal sempre. Escusado dizer que não o fazia. Nesta data já ia a uma psicóloga por causa da minha obsessão. Fui muito mal acompanhada. Para veres a psicóloga disse-me que eu não tinha nada de grave, que a vida e o trabalho me iam tirar as paranoias. A certa altura deixei de ir tanto à nutricionista como à psicóloga. Continuava a restringir o que comia: fazia pratos massivos de legumes quase nada de hidratos e proteínas. Quando saía da linha no dia a seguir fazia jejum e fazia exercício para compensar o que tinha comido. Fazia 3 a 4 vezes por semana substitutos de refeição. Mentia à minha mãe e dizia que tinha almoçado Y ou X, punha um prato e talheres na máquina para parecer que tinha almoçado.

3. O que te fez “acordar” ?

Toda a gente me dizia que estava magra, que parecia doente, que ia ficar doente. As minhas amigas todos os dias me diziam (era a hora de chatear a Inês, como eu dizia). Os meus amigos diziam o mesmo, diziam que os rapazes não gostavam de mulheres tão magras. Não ouvia nada. Para mim ainda não estava como queria. No verão de 2011 altura em que estive mais magra uma amiga minha (que teve anorexia) sentou-se comigo e esteve a falar uma hora. Eu só chorava, porque tudo que ela dizia era o que eu sentia. Em Setembro comecei a ir ao psiquiatra. Mesmo com ines12medicação continuava obcecada e a restringir e compensar. A certa altura comecei a ter calores depois do jantar, chegava a ter que me despir. Contei à minha tia (médica) e ela mandou-me logo fazer análises. Resultado: estava em menopausa. Nesta data fui a um endocrinologista e comecei a ser seguida por uma psiquiatra especialista em distúrbios alimentares.

4. Foste internada ? 

Nunca fui internada. Quando comecei as consultas de psiquiatria foram-me receitados ansiolíticos e anti-depressivo (Xanax e Dumyrox).

5. O que esta doença trouxe-te a nível de saúde ?

Como disse em cima entrei em menopausa, o meu sistema hormonal era de uma senhora de 60 anos. Além disso o cabelo e unhas ficaram fraquíssimos. O culminar foi o AIT (Acidente Isquémico Transitório – vulgo mini AVC) em Julho de 2012, que foi potencializado pelo meu estado de saúde mais pílula e tabaco. Deixei a pílula e desde essa data que fiquei sem o período.

6. Tinhas algum ideal de beleza que pretendias atingir ?

Eu queria ser magra, porque achava que assim iria ser feliz. Queria ter um corpo de modelo, ser estreita e delicada. Algo que agora sei que nunca poderei ter porque simplesmente tenho uma estrutura larga.

7. Quais eram os teus truques para te sentires melhor ?

Bebia litros (6/7 L) de água e chá verde para enganar a fome. Comia chicletes como uma louca. Entupia-me de legumes. Cheguei a tomar laxantes.

8. Descreve-me a tua alimentação nessa época. Vomitavas ? Eras obrigada a comer ? ines8

Como disse comia pratos absurdos de salada e legumes. Taças gigantes. Nem sempre comia hidratos e racionava a proteína. A certa altura comecei a comer imensa proteína (além dos legumes) mas hidratos em quantidades mínimas. Claro que nesta data nem me passava pela cabeça que a fruta tinha hidratos.

9. O que sentias depois de comer uma refeição ?

Se fosse “clean” não tinha problemas: podia ter acabado de comer um kilo de robalo ou 2 kilos de legumes que era tranquilo. Se fossem alimentos “proibidos” – hidratos, doces e gorduras sentia-me mal, gorda feia e disforme. Comia à louca, até chegar ao ponto de ficar mal disposta com dores e nauseada.

10. O que achavas de ti mesma ?

Não me achava magra, achava que ainda podia ficar mais magra. Sabes, quem tem esta doença acha sempre que consegue ficar mais magra, nunca estas magra de mais. Pesava-me todos os dias. Se aumentava uns gramas era uma desgraça começava a restringir logo e a over exercising para perder o que tinha ganho.

11. ” Inês, tens de comer ! ” , O que sentias ao ouvir esta frase ?

Nunca fui obrigada mesmo a comer. Fazia tudo em segredo. Como disse comia pratadas de legumes portanto nunca parecia que não comia, disfarçava bem a restrição alimentar. Só nos dias seguintes aos episódios compulsivos é que me mandavam comer (porque aí sim, não comia de todo) e aí era uma angustia ter que comer – mesmo que fosse sopa ou gelatina que era o que normalmente comia nestes dias (além de litros de líquidos).

12. Praticavas exercício físico naquela época ?

Inicialmente fazia a elíptica 3 vezes por dia. Depois de partir 2 vezes vendi e comecei a fazer em casa só um “cardio” ines11que consistia em estar sempre a correr (não muito intensamente durante 40 a 60 minutos). Saltava também à corda – 3 vezes durante a corrida, no mínimo 60 saltos. Fazia isto 2 vezes por dia, fizesse chuva ou sol. Parava tudo para fazer isto. Fazia também abdominais (200 por dia) de manhã, de tarde e à noite (antes de dormir). Cheguei ao cumulo de estar na praia e fazer biciclete no ar (deitada na areia com as pernas para cima – 15 minutos)as minhas amigas passaram vergonhas gigantes comigo na praia.

Neste momento faço musculação com objectivo de ganhar massa muscular – queria chegar aos 57/58 mas com muita massa magra à mistura ehehe. Treino 6 vezes por semana (sendo que um dia é dedicado ao treino metabólico e outro a cycling – que não posso abusar mas que AMO). O meu treino neste momento foi feito pela Team Warriors que estão a fazer um esforço enorme para que atinja este objectivo – O MEU SONHO É MESMO TER OS ABS DA Gabriella Pugliesi eheheh.

13. Esta doença afectou de uma forma negativa a tua relação com os teus amigos / familiares ?

Com a família fiquei intratável. Era egoísta, nunca pensava neles, estava constantemente mal disposta, irritada e insuportável. Respondia sempre de forma mal-educada e era bruta. Já os amigos (os mais próximos) levavam com as paranoias, os constantes “nãos” a convites para jantar, lanchar  e almoçar. Tudo que implicasse comer fora da minha zona de conforto (isto é que não tivesse sido feito por mim) era recusado. Uma das minhas melhores amigas chegou a ficar chateada comigo porque eu estava constantemente a dizer-lhe para não comer isto ou aquilo porque ela era “gordinha” na minha cabeça.

14. Tendo em conta a tua experiência o que tens a dizer a todas as meninas que sofrem de distúrbios alimentares ?

Não se iludam: ser magras não nos torna felizes. Os outros não vão gostar mais de nós por sermos magras. Ficamos mais infelizes que nunca porque somos magras, mas não o suficiente para sermos “felizes”. Isto leva a que fiquemos ainda pior porque a “solução” para os nossos problemas não resultou. E não, nunca vamos estar bem, vamos poder sempre perder mais um kilo, só mais este e juro que vou ficar como quero. Não estou magra de mais, sei que quando chegar aos X vou ser feliz” – isto não é real, isto não acontece. Não adianta dizer isto, repetir na nossa cabeça porque não se vai tornar realidade. Não ouçam o diabinho (personalizo esta doença como um diabinho e um anjinho de cada lado da cabeça que nos falam ao ouvido e dizem come – não comas!! Vais ficar GORDA). O nosso pior inimigo somos nós próprias porque sabemos o que dizer para fazer com o que “fazemos” esteja bem.

15. Hoje em dia, sentes culpa a comer ? Contas calorias, pesas os alimentos ?

Ainda não posso dizer que estou curada. Aliás acho que uma pessoa que passa por um ED nunca fica totalmente “despreocupada” com o que come. O que acontece é que aprende a ter uma relação normal com a alimentação. Não compensa quando sai da linha. Não é uma refeição ou um dia que destrói uma alimentação diária. Em Abril de 2014 deixei o Yoga (que fiz durante 2 anos 5 vezes por semana – e que me ajudou imenso) e entrei para o ginásio com o objectivo de ganhar algum peso de preferência em Massa Muscular – se bem que tinha de aumentar a massa gorda 😉 Comecei a comer melhor mas só há cerca de 2 meses comecei a pesar a comida porque não estava a conseguir obter os resultados que queria e precisava – oscilei de peso e perdi massa magra em Dezembro e Janeiro.

16. Quais as diferenças que tens a apontar entre a Ines de há dois anos atras, com a Ines de 2015 ?

Ui tantas… A comida já não é o demónio que era, estou muito mais consciente de que não é um dia “mau” que estraga um todos os outros dias bons! Confesso que ainda tenho dificuldades em ser totalmente normal com a comida, mas contar macros tem me ajudado a comer melhor, sem grandes paranoias. Como chocolate todos os dias, manteiga de frutos secos… claro que tudo pesado. Ainda tenho “medo” de sair da minha zona de conforto mas quando faço “cheatmeal” ou saio mais da linha faço um esforço enorme para não compensar. São pequenas vitórias que pouca gente dá valor mas que para mim são batalhas ultrapassadas. A minha última vitória foi acabar com o cardio em jejum que fazia desde que comecei a ficar doente (2011).

17. Quando é que decidiste criar a tua conta de IG ?

Criei o @inesgetshealthy num momento da minha vida em que precisava de um escape – a minha Mãe descobriu que estava doente no ano passado em Julho – tinha episódios compulsivos, “binge eating” e sentia que estava a voltar ao buraco onde ines9estava a começar a sair. Comecei em segredo, ninguém sabia que eu tinha esta conta – não contei a ninguém. A certa altura algumas pessoas que me conhecem começaram-me a seguir (não queria muito portanto ainda as bloqueei 😛 ). Quando o meu grupo de amigas descobriu comecei a não me importar tanto com o facto de se saber (até porque quem me conheceu na altura percebeu claramente que eu tive anorexia). O IG tem-me ajudado IMENSO a evoluir, a descobrir o que a comida e o fitness world pode fazer por mim. Descobri pessoas incríveis que, não me conhecendo de lado nenhum me ajudaram como se de amigos se tratassem. Essas pessoas têm um cantinho especial no meu coração e posso dizer que já são minhas amigas (mesmo que só tenha conhecido uma delas para já). O corpo que eu gostaria de ter (dentro do que posso tendo em conta a minha estrutura) é possível, leva tempo bem sei, sou uma apressada eheheh mas sei que chego lá.

18. Inês, és feliz ? 

Essa pergunta é complicada porque penso que nunca estamos satisfeitos totalmente. Ainda não sou feliz mas sei agora que o posso ser e que isso não passa por ser magra, mas sim ser saudável, ter amigos e família. Sou muito mais feliz do que há 4 anos atrás, aliás hoje sou mais feliz do que era em Dezembro de 2014. Quando largar de vez a medicação estarei quase no ponto óptimo. Concluindo, o caminho está aberto agora só preciso de o percorrer para chegar lá 😀

19. Agradecimentos

Primeiro tenho de agradecer à minha Mãe que aguentou viver comigo enquanto estive na pior parte da doença e por ter engolido em seco todas as vezes que me passei. Depois à minha Tia (que é uma segunda mãe). Ao meu grupo de amigas (as CR) e a 3/4 melhores amigas separadas (elas sabem quem são). Por último agradeço às minhas girls do IG, @luisalifts, @giulliacalapez, @barbara_alemão @pessoa1976 que me ajudaram desde o início e recentemente às queridas @taniarosado e @anaisagoncalves ❤

20. Redes sociais onde podemos entrar em contacto contigo / email

Quem quiser pode falar comigo pelo IG @inesgetshealthy ou pelo email inesita_16_2@hotmail.com 😀

Obrigada Inês ! 😀


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